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12.7.06

Xuxa e Sibila no carrocel do tempo


Xuxa e Sibila no Carrossel do Tempo
Sérgio Capparelli


Antes de voltar para casa, os meninos gregos passam sempre diante de uma casa, que tem uma gaiola pendurada no pórtico. Dentro da gaiola está uma velha chamada Sibila. Os meninos gritam do portão:
- O que você quer, Sibila?
- Eu quero morrer, eu quero morrer.
- As crianças riem, contam piadas sobre a infelicidade de Sibila e vão embora.Dentro da gaiola, Sibila chora.
- Ela é infeliz.
- Quer morrer.
Tinha sido uma mulher belíssima. Tão bela que Zeus havia se apaixonado por ela e quis levá-la para a cama. Os deuses eram assim, naquele tempo. Sibila respondeu que aceitava, desde que recebesse o dom da eternidade. Zeus, prático e muito interesseiro, respondeu, sim, lhe concederia a eternidade. O namoro durou pouco tempo. No fim, cada um saiu para o seu lado. Zeus, na sua auto-confiança de deus dos deuses, foi para o Olimpo; Sibila, para sua casa.
Com o tempo, Sibila deu-se conta de que havia pedido a Zeus a eternidade, o que a transformava quase numa deusa, mas não a juventude, o que a fazia mais do que humana. E assim, passando o tempo, foi ficando velha. Enrugando, enrugando. De tão curva, suas costas formaram um arco. Encolheu. E no fim era quase um inseto, uma cigarra, conforme a lenda, numa gaiola no pórtico de uma casa.
Sibila queria morrer mas não podia.
O mito da eternidade de Sibila vem a ser uma metáfora para a eternidade momentânea dos mitos da televisão e para a posterior descoberta de que envelhecimento - não relacionado ao calendário mas ao tempo mitológico- os suprime da lógica da produção cultural moderna. Xuxa, por exemplo, envelhece a cada dia, na grade de programação da Globo, em especiais de segunda categoria.
Não estamos falando aqui do tempo e da velhice de Maria da Graça Meneghel, nascida em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, no dia 27 de março de 1963. Estamos falando da rainha das crianças, da Xuxa, do mito criado e recriado diariamente, da heroína que vive dentro do tempo simbólico do imaginário infantil. Estamos falando do tempo de certos heróis eletrônicos cuja característica main é alçar-se acima do cotidiano, indo além das fronteiras do dia-a-dia.
Airton Senna e Elvis Presley, por exemplo, foram além de seu tempo. Eles transgrediram, ultrapassando os limites de um cotidiano normal que os limitava.
"O herói, por meio da transgressão, põe de manifesto sua ação no sentido de cancelar os limites e as fronteiras e projetar-se, assim, além do marco sócio-cultural em que a história pretende enquadrá-lo." (Bauzá, p. 163)
Só que essa transgressão é quase sempre seguida de uma morte prematura, se tomarmos os exemplos dos mitos antigos ou dos mitos atuais. Assim aconteceu com Elvis Presley, Marilyn Monroe, a princesa Diana, Airton Senna. Morreram enquanto humanos e reforçaram a dimensão mítica, deixando para trás uma imagem de eternamente jovens. É como se a morte física os liberasse para uma imortalidade simbólica.
Com Xuxa é diferente. Lentamente diminui o seu ímã, sua força de imantar, de puxar para si. Diante disso, afasta-se do centro, desloca-se espalhafatosamente na direção de quem não a cultua. Perde em naturalidade. Elvis Presley, a princesa Diane, Airton Senna e Marilyn Monroe não se mostraram espalhafatosos nem antes nem depois da morte. E tornaram-se imortais, paradoxalmente por causa de uma morte prematura.
Xuxa, ao contrário, é miticamente mortal por não ter morrido no tempo certo, condenada a sofrer a velhice lenta no panteon eletrônico. E seus cultuadores potenciais deixam claro que não gostam de sibilas querendo morrer. Preferem a cinematografia do carro de Senna espatifando-se contra o muro de Imola, as drogas que projetaram Marilyn até o Olimpo ou o câncer de Elvis que o cercou de hullabys ou a perseguição de Diane nos subterrâneos de Paris.
Hoje, como antigamente, heróis e heroínas, modelos exemplares, são necessários para as crianças, assim como para os adultos. De Vico a Lévi Strauss, de Barthes a Gadamer há uma tendência em não se considerar o pensamento mítico como algo inferior mas diferente. Teóricos da literatura, como Northrope Frye chegam mesmo a afirmar que todas as formas da literatura ocidental são deslocamentos dos mitos. Ele diz que mitos são histórias dos deuses; epopéias são relatos de heróis; os romances são histórias de figuras heróicas que fogem do comum, todos eles, no que chama mímese superior, mais poderosos do que os mortais comuns; na mímese inferior estão os personagens como nós mesmos, na ironia ou na posição de vítimas indefesas diante do que nos oprime.
Esses deslocamentos, segundo Frye, acontecem em outras áreas da cultura, preenchendo nossa necessidade de acreditar em alguma coisa, de cultuar os que vão além, dos que não ficam presos na armadura do cotidiano sufocante. Esses semi-deuses podem ser os neo-olimpianos de Morin; podem ter origem na necessidade humana de construir ídolos e de cultuá-los, conforme diz Balzá; podem participar de forma ativa da construção da nossa subjetividade, nessa nossa busca de modelos exemplares, segundo Kolakowsky; ou, quem sabe, estejam subjacentes ao esforço que os homens e as mulheres empreendem para dominar os aspectos irracionais que têm dentro de si, segundo Freud; ou pode ser que, finalmente, a televisão se constitua apenas um mito na sala de jantar, conforme, entre nós, Rosa Fischer.
Alguém poderia contrapor que a morte prematura de Airton Senna, a princesa Diane, Elvis Presley ou a Marilyn Monroe construíram a imagem de heróis e heroínas completos. Mas isso não aconteceu com Xuxa. Essas juventude e beleza midiáticas envelheceram. A televisão cria rugas muito cedo no rosto de seus personagens. Essa juventude e essa beleza estão envelhecendo com as rugas que a velhice midiática cria no rosto de seus personagens. Se isso não bastasse, existe a outra velhice, a das fórmulas dos próprios produtos culturais. Por isso as Xuxas são substituídas, por Elianas, que são substituídas por Angélicas, que são substituídas por Carla Perez, e assim por diante.
Diante da inexorabilidade do tempo midiático, ela não tem idade para mudar de papel, tornando-se, por exemplo, uma anciã respeitada na tribo por sua sabedoria ou por sua experiência, como Hebe Camargo. O que consegue é uma reviravolta no segundo tempo, com o gol da maternidade. E essa maternidade tanto pode mandá-la para o ostracismo televisivo, como foi o caso de Madonna, ou mantê-la por mais um tempo sob os refletores, nesse esforço enorme da Globo, que quer fazer dela um símbolo de mãe coquete mas não caquética.
Nesse carrossel de máscaras, a velhice midiática continua sendo a maior fraqueza de Xuxa. Lévi Strauss adverte que não adianta procurar entre os mitos primitivos aquele que foi o primeiro, o mito original, do qual saíram as outras versões. Para ele, o mito é como uma árvore. O mito de Édipo é uma árvore com os seus galhos. E o mito não é este ou aquele galho mas o conjunto das variantes e elementos constitutivos que dão forma ao mito. Da mesma forma, o que a criança encontra na televisão não é apenas o discurso da beleza, da raça, da competição, da sex-girl de Xuxa mas as mesmas variantes em Angélica, Eliana ou em Carla Perez.
Finalmente, Xuxa e Sibila são elas e suas variantes; elas e seus elementos constitutivos. Na lógica da televisão, Xuxa torna-se uma Sibila qualquer, engaiolada porque conseguiu a eternidade da fama mas não a permanente juventude televisiva. Talvez ela não soubesse que o tempo da mídia era um tempo cruel. Talvez por isso, quando ligamos a televisão, assistimos a uma Xuxa engaiolada, atrás da grade de programação, murmurando "eu quero morrer! Eu quero morrer!". Os meninos gregos riem, contam piadas e vão em busca de Angélica, de Elianas, nesse carrossel do tempo midiático.

Este artigo foi previamente publicado no Caderno Cultura do jornal Zero Hora, de 9 de janeiro de 1999.


Dica importante a ser lida
Revista Nova Escola. Televisão na Sala de Aula. Liguem a TV: vamos estudar. Editora Abril: edição 189, janeiro/fevereiro de 2006, p.44-49.
Acesse: www.novaescola.org.br e obtenha o texto sugerido.








11.7.06

O temor da influência da TV na caricatura de Ziraldo


O temor da influência da TV na caricatura de Ziraldo.
Rio de Janeiro, Edições Pasquim, 1977.

Nos encontramos em plena revolução multimídia. Esta revolução está transformando o homo sapiens, produto da cultura escrita, em homo videns para a qual a palavra foi destronada pela imagem. Nele, a televisão cumpre um papel determinante. A primazia da imagem, quer dizer, do visível sobre o inteligível, leva a um ver sem entender que acabou com o pensamento abstrato, com as idéias claras e distintas.

Sartori, 1998

E1a dá sentido (?) à realidade. Decide o que é o que não é importante. E produz o prazer de saber-se e sentir-se integrado dentro de uma coletividade. Para muitas pessoas a televisão é um compêndio de todas as suas esperanças: é aquilo que de mais importante ocorre em sua vida ao longo do dia.

Joan Ferre's, 1996

Até 5ª feira!

Jocély

26.6.06

Filmes - nossos comentários...

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- um filme que recomendo
- um filme que não gosto

19.6.06

Decifra-me ou te fotografo




Lembrança da Esfinge egípcia: “Pela manhã, realidade; à tarde, recorte; à noite memória”.
Miriam Manini

No que consiste o mistério do fotográfico?